Apresentação

1.

A edição das Obras Completas de Aristóteles arrancou de uma constatação: o número extremamente insuficiente de traduções portuguesas dos escritos aristotélicos (apenas cinco estavam publicadas aquando do lançamento do projecto: Categorias, Sobre a Alma, Política, Retórica e Poética) e, em consequência, o fraco nível de interesse pelo autor por parte da comunidade filosófica portuguesa e o muito deficitário grau de conhecimento do público em geral em relação à obra e ao pensamento deste grande filósofo.

Em conformidade, o seu objectivo principal consistiu em tornar acessível ao leitor português, tanto do ponto de vista da língua como do do esclarecimento do texto, a totalidade da colecção aristotélica, aí incluídos não só os cerca de cinquenta tratados completos que subsistiram até aos nossos dias, como também todos os outros textos que, de modo mais ou menos fragmentário ou fidedigno, foram transmitidos pela tradição sob o nome de Aristóteles. 

Esta colecção engloba, portanto, para além dos escritos reunidos por Imanuel Bekker, em 1831, na primeira edição moderna da obra aristotélica (a qual inclui tanto tratados autênticos, como espúrios e duvidosos) e do texto posteriormente descoberto da Constituição dos Atenienses, a totalidade dos fragmentos atribuídos a obras perdidas de Aristóteles (uma vez mais, autênticos, suspeitos e pseudepígrafos) e ainda o conjunto de obras apócrifas que circularam em época tardia sob o nome de Aristóteles, como o Livro das Causas, o Segredo dos Segredos ou a chamada Teologia de Aristóteles.

Ao propor-se levar a cabo a tradução colectiva deste conjunto, as presentes Obras Completas serão, assim, a nível internacional, as primeiras e, até ao momento, as únicas a englobar a integralidade do legado aristotélico, uma vez que nenhuma outra inclui estas últimas.

Todas as traduções publicadas são efectuadas directamente a partir da língua ou línguas originais.

2.

Sendo este projecto movido pelo objectivo de garantir o acesso do leitor português ao pensamento e à obra de Aristóteles, assim contribuindo para a generalização do seu conhecimento entre nós, compreende-se que tenha decidido reduzir ao mínimo todas as exigências técnicas, restringindo o aparato ao que simplesmente permita cumprir aquele objectivo de modo compatível com a qualidade e o rigor das traduções.

Em consequência, as publicações incluídas nas Obras Completas de Aristóteles obedecem a um modelo simples e regular: uma introdução com o enquadramento histórico e filosófico do texto traduzido; a tradução da obra; e as notas de esclarecimento que permitam ao leitor seguir o pensamento de Aristóteles onde ele se torna mais difícil de apreender, ou que o tradutor necessite de incluir para justificar as suas opções ou para alertar o leitor da existência de leituras alternativas que, por esta ou aquela razão, foram preteridas em favor da consagrada na tradução oferecida.

Neste sentido, o presente projecto não tem a pretensão de esgotar de uma vez por todas a investigação em torno das obras aqui traduzidas, ou de ter a última palavra sobre complicadas decisões técnicas, linguísticas ou filosóficas, de interpretação. Pelo contrário, o que pretende é, ao disponibilizar ao público traduções competentes e fidedignas da obra integral de Aristóteles, feitas por investigadores de indiscutível autoridade científica nesta área, favorecer o interesse acerca de Aristóteles, de modo a que, em breve, floresçam muitas outras, desejavelmente melhores do que as que agora lhe são entregues.

3.

A iniciativa desta edição pertenceu ao Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, que assegura igualmente a sua promoção e coordenação. Rapidamente, contudo, passou a contar com a colaboração institucional de outros institutos científicos nacionais, designadamente, no momento inicial, do Centro de Estudos Clássicos e do Centro de História da Universidade de Lisboa, do Instituto David Lopes de Estudos Árabes e Islâmicos e dos Centros de Linguagem, Interpretação e Filosofia e de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. Pode dizer-se que ele mobiliza agora praticamente todos os investigadores nacionais nas áreas da filosofia antiga, dos estudos clássicos e dos estudos árabes e islâmicos, para além de um número crescente de investigadores estrangeiros.

Esta edição não teria sido também possível sem a elevada compreensão que encontrou na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, a qual imediatamente entendeu a sua importância cultural, tendo assegurado desde o início e até ao momento a publicação em papel dos volumes editados.

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